Você preferiria ser esmagado por uma sucuri, devorado por um crocodilo ou atropelado por um rinoceronte? E você preferiria fazer uma ceia em um castelo, tomar o café da manhã em um balão ou um chá à beira de um rio?
Na semana passada, a British Airways surgiu com seu próprio dilema do tipo "você prefere o quê". Ela perguntou aos seus funcionários se eles prefeririam trabalhar por um mês com salário integral, um mês sem salário algum ou tirar um mês de folga sem receber nada.
A BA perguntou ao seu staff o equivalente a eles preferirem ser atropelados por um rinoceronte ou tomar um chá à beira de um rio. Se eu fosse uma aeromoça, não precisaria pensar muito se preferiria ficar empurrando um carinho de um lado para o outro dentro de um avião, perguntando aos passageiros 'chá ou café, senhor?' sem receber nada, ou ficar sentada no jardim de casa lendo um livro.
A proposta da BA parece não fazer sentido. Trabalhar por dinheiro faz sentido. Não trabalhar e não receber nada faz sentido. Mas trabalhar e não receber nada por isso não faz sentido algum. Mesmo assim, nos últimos meses as velhas relações entre o trabalho e o lazer, o dinheiro e a falta de dinheiro, começaram a se romper. A BA está na liderança, ao implorar a seus funcionários que trabalhem de graça, enquanto outras empresas pedem a seus funcionários que fiquem em casa sem fazer nada e paga a eles uma mesada pelo privilégio. Em janeiro, a KPMG ofereceu ao seu staff períodos sabáticos de três meses com 30% do salário, e o banco espanhol BBVA está propondo pagar aos seus funcionários quantias similares por até cinco anos, se eles prometerem não ir trabalhar.
Para entender o que está acontecendo, é preciso não esquecer os fundamentos econômicos aprendidos. A microeconomia diz que cada pessoa possui uma curva de oferta de mão-de-obra e, sem salário, nenhum trabalho é oferecido. Na medida que os salários aumentam, o trabalhador fornece mais mão-de-obra. A macroeconomia supõe que os salários são inflexíveis em termos de queda. Se você quiser que os salários caiam, então a única maneira disso acontecer é fazer a inflação subir.
Mas o que vem acontecendo nos últimos meses mostra que nenhuma dessas suposições é verdadeira. A recessão está mostrando que nossas preferências em termos do lazer versus o dinheiro, não podem ser traçadas em um simples gráfico. Também está mostrando que os salários não são inflexíveis em termos de queda. As empresas estão apresentando novas maneiras de fazer os salários caírem, e os trabalhadores na maioria estão aceitando tudo como se fossem cordeirinhos - mais de um quarto dos trabalhadores britânicos já engoliu o que na verdade é um corte de salário.
A nova realidade tem dois efeitos colaterais bons. O primeiro é que ela pode estar nos livrando de nossas maneiras workaholics. Na maior parte das empresas, quem ganha aprovação, na maneira tradicional, é aquele que trabalha muito. Agora, as companhias estão tão desesperadas para economizar na conta de salários que estão instruindo o pessoal mais graduado a dar um bom exemplo e ficar em casa. A nova mensagem é: para avançar, pare de trabalhar.
Em algumas companhias, os empregados estão respondendo entusiasticamente. Em outras, eles estão mais desconfiados. Algumas organizações estão tendo problemas no enquadramento de seus workaholics porque temem que concordar com esse esquema possa ser o equivalente a pendurar nos pescoços desses funcionários um grande cartaz onde se lê: "Sou dispensável. Por favor me demita."
Para contornar isso, algumas companhias estão tendo que forçar seu pessoal mais graduado a se voluntariar para períodos sabáticos, enviando a eles memorandos instruindo-os a liderar do front e a permanecerem afastados -se não...
Em algum momento a ficha vai cair.
Mas eu fico imaginando se as empresas não estão perdendo uma oportunidade de tentar fazer os funcionários aceitarem menos dinheiro por um tipo de altruismo, em vez de temerem por seus futuros. Esse tipo de coisa está tão fora de moda que me sinto meio envergonhada de sugerí-la. No entanto, eu acho que há uma pequena chance de que em algumas organizações seja possível convencer as pessoas a receberem menos porque elas dão valor à sobrevivência de sua companhia.
Uma coisa meio "estamos todos juntos nisso, vamos sair dessa juntos." Mas há um grande problema num esquema desse tipo. É quase impossível convencer as pessoas a se unirem quando a diferença de remuneração ficou tão grande. Quando um corte de salário afeta aqueles que recebem menos, mas não afeta aqueles que ganham mais, isso não se parece nada com "vamos nos unir."
Se eu fosse uma aeromoça da BA, eu poderia ser convencida a empurrar meu carrinho para lá e para cá de graça por uns poucos dias, em vez de ganhar meu salário normal. Mas o que me ajudaria a aceitar isso seria ver que meu chefe abriu mão de seu salário astronômico por um período mais longo.
Na crise, sempre se aprende muito.
Fonte: Diário do Turismo.




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